Publicado por: correnteviva | novembro 25, 2009

Função e benção de uma Crise

A definição da palavra crise vem do grego, e significa distinguir. Mas, distinguir entre o quê? Distinguir no contexto de crise.  A crise sempre traz a conotação de algo ruim, desagradável ou coisa para evitar. O fenômeno da crise tem este lado com certeza. Mas o que é que dói quando estamos numa crise? 

Condensado para a sua essência, o que dói é que estamos em apuros, ficamos aflitos e não sabemos o que fazer. A gente se sente imobilizado, paralisado, com medo e desesperado. Eis um corte do cardápio de ingredientes que compõem aquilo que nos apresenta no “prato” da crise.

         Claro que uma crise difere de intensidade, dramaticidade e tamanho no que se refere às conseqüências de algo que acontece conosco, e que é a causa de uma crise. Ora, fica a questão: “distinguir entre o que?”. E “por que, estando perante a necessidade de distinguir, este fato está acompanhado de tanta miséria?”. Mas também, por outro lado: “por que a crise traz a semente de uma benção?” e, finalmente: “qual é a função da crise na vida da gente, da sociedade, das organizações e do mundo?”.

No fim das contas, é indiscutível que qualquer desenvolvimento, seja no reino vegetal, animal ou humano, e até planetário, acontece através de crises. Mas aqui descrevo o fenômeno de crise no contexto do ser humano.

Na essência da crise reside a sua função (benéfica), ou seja: o de fazer com que um organismo vivo mude, para que este seja capaz de encarar desafios no seu ambiente conforme o potencial que lhe é dado enquanto criatura humana deste planeta. Sabemos que em determinado momento, para avançar na vida, é necessário que abandonemos a fase de adolescente para encarar e assumir desafios que combinam com as exigências da vida adulta. Esta, por sua vez, também passa a ser distinguida por outras fases de desenvolvimento, cada uma com desafios mais complexos e abrangentes (isto é: carregados com conseqüências para o ambiente individual, social e natural). Pedem por uma “estrutura” interna cada vez mais “madura”. Ou seja: quando falamos de crise, trata-se da questão que cada ser humano procura achar um equilíbrio na sua relação com seu ambiente (qualquer que seja). Mas equilíbrio a respeito de que? O equilíbrio que se manifesta em mim no sentimento em relação às minhas necessidades e projeções no futuro, dizendo respeito à maneira como eu gostaria que fosse minha vida: “As coisas estão sob controle”. Controle de que? Que eu me sinta capaz de lidar com o ambiente para que este me forneça as condições para tal!  Nada mais, nada menos!!  Daí a imensurável sucção do desejo de obter poder. Mas também o incontestável fato de que ninguém possa ficar completamente sossegado, pois sempre tem coisas que estão fora do controle da gente. Consequentemente, sempre haverá uma tensão entre mim e o meu ambiente.

À que se refere à noção “madura” no contexto de uma pessoa?  Refere-se ao potencial que uma pessoa possui e as aptidões das quais dispõe para, primeiro agüentar, e segundo, saber lidar com a diferença entre o que existe (tanto na gente como no ambiente) e o que a pessoa desejaria que fosse (tanto na gente como no ambiente).  Em última instância, a tensão entre o que é e o que deveria ser (na visão de uma pessoa) é comparável a uma quebra de força:                                                                                                                 

       – o peso das exigências em consequência daquilo que o ambiente precisa e em decorrência daquilo que a pessoa queria que fosse (ou não fosse!)                                                                                                                                                 – e a força interna (psicológica e espiritual) permitindo a uma pessoa não ser jogada “fora do eixo”, ficando firme e não entrando em pânico .

Ora, onde entra o elemento de crise nesta história? No fato de a pessoa, frente a acontecimentos ou situações de seu ambiente, se sentir subjugada, dominada e até esmagada. Em outras palavras, o controle lhe escapou. Não sabe o que fazer, o que pensar, como se posicionar, etc. No fundo, é isso que tanto atrai as pessoas às novelas: assistir às mazelas de outras pessoas que se metem, ou que são metidos em situações “de crise”. E todos querem saber: como este drama vai terminar? Como ele ou ela conseguirá lidar com esta situação? O grau de profundidade da crise está gravado nos rostos dos atores… Sem crise não haverá novela.

Sem crise não haverá vida que se evolui, ou melhor dito: não haverá oportunidade da pessoa Se evoluir. Isto é: mudar algo em si para que seja capaz de equilibrar novamente a sua relação com o ambiente. Crise é o resultado do desequilíbrio entre o ser humano e seu ambiente, e ao perceber isto, é transformada na possibilidade de se tornar uma benção.

Jacques Uljée – Pedagogo Social

 


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