Publicado por: correnteviva | julho 31, 2010

A Mulher em Situação de Prostituição

Às terças-feiras vou com uma amiga e companheira de trabalho, Maria Filomena Mecabo, religiosa e socióloga, ao Parque da Luz, na cidade de São Paulo, abordar as mulheres em situação de prostituição que lá estão cotidianamente exercendo esta atividade. Faz parte do meu trabalho como Coordenadora Pedagógica Nacional da Pastoral da Mulher Marginalizada1 estar perto delas, conhecer a sua realidade, quem são e entender a complexidade que é a prostituição.

Um senso comum alimenta a ideia de que a prostituição é revestida de glamour, facilidades, prazer constante. No entanto, conforme vamos adentrando a este universo, percebemos uma realidade bastante sofrida e cruel a que estão submetidas as mulheres que fazem prostituição. E bem entendido: a prostituição feita por mulheres pobres, com baixa escolaridade, analfabetas, não a prostituição de luxo, que tem uma outra forma de funcionar.

As mulheres sobre as quais escrevo são mulheres que estão lá, no Parque da Luz e em outros bairros da cidade de São Paulo: Praça da Sé, Praça João Mendes, Brás, Parque Dom Pedro…, que se separaram do marido, foram abandonadas pela família ou perderam o emprego e, como as contas não esperam, o aluguel também não, e muito menos o alimento dos filhos, encontram na prostituição uma saída para o dinheiro imediato, não fácil. Pois, conforme relato delas, não é fácil se deitar com homens desconhecidos todos os dias: “Se possível fosse adquirir do cliente o dinheiro sem se deitar com ele, melhor seria” (sic); como também não é fácil estarem submetidas à violência física de alguns clientes, de cafetões, de cafetinas, da polícia, da violência social e, talvez, da violência mais cruel, a das pessoas que olham com um olhar duro, de reprovação para elas. Esta sim, fere, não somente o corpo, mas a alma, a autoestima.

 

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1 A Pastoral da Mulher Marginalizada é uma pastoral social atuando no âmbito nacional, ligada ao Setor de Pastoral Social da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Orienta-se pelas diretrizes da CNBB e se relaciona à Comissão Episcopal para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz. Sua missão é ser presença solidária, profética e evangélica junto à mulher, adolescente, jovem ou adulta em situação ou em risco de prostituição, buscando novas relações de gênero e incentivando o seu protagonismo e tem como objetivo apoiar as mulheres quando em situação ou em risco de prostituição a exercer sua cidadania, fortalecer sua autoestima e ampliar seu conhecimento sobre as questões sociais, de gênero, saúde e trabalho.

 

Imagine todos os dias receber de alguém esta reprovação constante, esta frieza. Não é à toa que quando nós nos aproximamos delas, despidas de julgamentos, elas se surpreendem e se vinculam a nós genuinamente. Mas, é preciso a cada abordagem ir tecendo este vínculo com cuidado, acolhimento e amor, é preciso ter paciência, dar tempo ao tempo para este vínculo se solidificar ao ponto de confiarem suas mais íntimas vulnerabilidades, seus sonhos, seus desesperos e desesperanças. E é aí, que então, se abre para nós o universo do passado, das relações familiares, de feridas não curadas da infância e adolescência, de abuso sexual e violência, de pobreza extrema, de falta de orientação que possibilitaram a entrada de algumas mulheres na prostituição.

Percebemos nestes relatos que estas mulheres de alguma forma, através da prostituição, lutam para estar melhor ou pelos menos acreditam que poderão estar. Para muitas a prostituição é por um tempo, não querem estar nela “a vida inteira” (sic). Dizem que “Ninguém nasceu para ser prostituta”(sic); “Não vejo a hora de sair daqui” (sic). Algumas buscam se profissionalizar e se alfabetizar. Descobrem que este é um caminho para sair da prostituição. Outras ainda, já estão envelhecidas. O tempo passou rápido demais. Já se foi 15, 20, 26 anos de prostituição. Algumas têm consciência de que a juventude já lhes escapou e que não chamam mais a atenção, a disputam com as mais jovens, e têm dificuldades de conseguir clientes; os clientes antigos e cativos é que lhes salvam da dificuldade financeira. Não raro, as ouvimos dizer que se arrependem de ter entrado na prostituição, que a mesma é uma ilusão, e que se pudessem diriam para as mais novas saírem dela enquanto é tempo.

Mas o tempo não volta atrás. E para estas mulheres ele é voraz e impiedoso, e continua avançando nas suas vidas, deixando sua marca em cada ruga de seus rostos e corpos, nas suas falas impregnadas de melancolia e entendimento de que estar nesta situação foi o melhor que puderam fazer no momento em que decidiram por ela. E embora trágica esta realidade, a esperança, a espera fazem-nas resignar-se, fazem-nas sonhar que ainda pode haver um tempo melhor.

Para nós que partilhamos um pouco da realidade destas mulheres, percebemos que nossa presença é acolhida por elas, e é sentida, a princípio, com estranheza e certa desconfiança, mas no decorrer do tempo, sentida como um aspecto positivo que vem contradizer que nem todos os olhares são duros e insensíveis; que os “pecados” podem ser redimidos e justificados. E ainda, percebemos que elas criam uma fortaleza interna para superar o seu dia-a-dia de tensões, ambivalências e temores de serem descobertas por vizinhos, parentes ou conhecidos no papel que exercem. Algumas, no entanto, sucumbem, desenvolvem doenças físicas e psiquiátricas. Não conseguem transitar sem culpa e conflitos neste lugar da prostituição. Talvez, nenhuma consiga, mas há as que conseguem lidar melhor com estes sentimentos.

Entendemos que o preconceito que alimenta a sociedade em relação à prostituição é fruto do desconhecimento de que a prostituição é consequência de uma desorganização social, econômica e política. Se assim não fosse, por que tantas mulheres pobres e sofrendo física e emocionalmente na prostituição? Acreditamos que é preciso um olhar amoroso e compassivo para elas, um olhar que enxergue além do que costumamos ver, de acordo com conceitos falsos propagados por uma mídia que não tem compromisso em desvendar os fatos na sua essência e denunciá-los em prol de uma verdadeira transformação social que inclua e não exclua mulheres e homens em situação de vulnerabilidade social.

A nossa presença e escuta é para elas uma possibilidade de ouvir a si próprias, de reeditar a própria vida, é momento e instante de falar de si, do passado que ficou, mas que ainda está ali, pulsando, querendo ser apreendido e transformado, de entrever o futuro incerto, mas com a potência de vir a ser melhor do que o passado e o presente. Ser escutada é para elas olhar-se no espelho e ver a si mesma aquém do que se sonhou um dia, mas também, enxergar o que ainda é possível fazer pela vida que se vive e transformar frustrações e culpas em alegrias e realização pessoal.  

Com certeza, deixamos uma impressão nestas mulheres, assim como também elas deixam a sua em nós. Ambos os universos ficam marcados pela presença uma da outra, que se transformam e se recriam no instante em que se encontram. Um grande questionamento surge para nós: como ajudarmos estas mulheres que querem deixar a prostituição a transformar esta situação? Quais as nossas reais possibilidades? Qual o primeiro passo para viabilizar a concretização deste desejo? É um desejo que tem pressa, que tem desespero. Será que nossa presença lhes incute esperanças que depois se tornam vãs quando percebem que esta transformação não é imediata, mas requer um processo? Provavelmente sim. Mas, o vínculo que se estabelece entre nós e elas permitem-lhes que percebam que o principal movimento de mudança depende delas mesmas. É o próprio desejo e consciência de mudança real que lhes fortalecerá e que proporcionará que a mudança se efetive. Nós somos o fator externo motivador, um instrumento facilitador. E juntas poderemos dar estes passos, apesar de inseridas num contexto sociocultural que dificulta este processo de mudança.

Assim, é fundamental fortalecermos durante a escuta a autoestima destas mulheres e valorizarmos cada conquista delas, como por exemplo, estar aprendendo a ler e a escrever, estar conseguindo pagar o INSS, estar aprendendo artesanato…

E acreditamos que a principal reflexão que fica para nós deste vínculo estabelecido com as mulheres em situação de prostituição e de nossas abordagens a elas é que há destinos que, parece, foram impostos pela vida e que há vidas vividas com mais sacrifícios e dificuldades que outras vidas (por quê?). No entanto, na mesma proporção destas forças que fragilizam o existir, existem outras forças de resistência e de inconformismo destas mulheres que não se contentam em viver à margem e na prostituição. Elas querem ser o que sonharam quando crianças e meninas que acreditavam que a vida poderia lhes oferecer mais.

 Bibliografia:

CALLIGARIS, Eliana Reis – Prostituição: O Eterno Feminino, Ed. Escuta, São Paulo, 2005

Dom PIRES, José Maria – O Grito de Milhões de Escravas – A Cumplicidade do Silêncio, Ed. Vozes, Petrópolis – RJ, 1986

FONSECA FILHO, José S. – Psicodrama da Loucura, Ed. Ágora, São Paulo, 1980

FREIRE, Paulo – Pedagogia do Oprimido, Ed. Paz e Terra, São Paulo, 2006

ROMAÑA, Maria Alicia – Pedagogia do Drama, Ed. Casa do Psicólogo, São Paulo, 2004

 

Marcia Elizabeth dos Santos, psicóloga e coordenadora pedagógica da Pastoral Nacional da Mulher Marginalizada


Responses

  1. […] A Mulher em Situação de Prostituição ― Marcia Elizabeth dos Santos […]

  2. Falou falou e no final não foi dito coisa com coisa.
    No final a resposta é de gargalhar a cada conquista, arrumar um emprego que pague 1 salário mínimo e chorar quando for despejada.
    Quando passar fome, ter muita fé em deus.
    Bons conselhos.


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